terça-feira, 29 de maio de 2007

Villa Matas me mata...

Estou a ler o meu primeiro Enrique Vila Matas. Descobri-o nas páginas do Jornal de Letras. Confesso que o que mais me entusiasmou à partida foi o facto do senhor ser espanhol, mais precisamente catalão, mas também a influência auto-assumida de Kafka, uma das minhas pedras literárias basilares, mas sobretudo a figura do senhor, que, não sei porquê, me faz sempre lembrar Truman Capote. Tem uma aura misteriosa e impenetrante e ao mesmo tempo reveladora de um sentido de humor sarcástico e mesmo negro. Um ícone portanto, que é mesmo o que Vila Matas parece que se está a tornar, quanto mais não seja pelo sucesso que tem revelado mundialmente. Há mesmo quem diga que é mesmo o melhor narrador em espanhol no activo.

Podia ter ido para “História Abreviada da Literatura Portátil”, “Bartleby e Companhia” ou “Suicídios Exemplares” (a eles irei com certeza no futuro), mas escolhi propositadamente para primeiro livro uma obra menos conhecida, ou pelo menos menos badalada. Peguei num livro, simplesmente porque o título surgiu-me como extremamente sugestivo: “Filhos Sem Filhos”, um livro que conta em pequenos contos a história de Espanha dos últimos 41 anos. 41 anos porque foi esta a idade com que Kafka morreu (lá está...). Contos protagonizados por pessoas sem filhos, mas constantemente assombrados pelas memórias das suas próprias infâncias. Pessoas sem filhos que não se conseguem libertar do facto de eles próprios serem ou terem sido filhos. Um livro sobre o surrealismo da vida quotidiana (lá está Kafka outra vez) embrulhado por um humor contagiante e uma escrita cativante.

Isto para concluir que já percebi porque é que Enrique Vila Matas é um sucesso. Porque é um desafio que se lê sofregamente. Não sei porquê, ou talvez por isso mesmo, para além de Kafka, outro autor que me está sempre a vir à cabeça é Paul Auster. Pode não ter nada a ver, mas a imaginação do leitor tem destas coisas. E são estas coisas (associações, ligações, emoções, visões...) que fazem da leitura a melhor playstation do mundo. E ainda por cima aprende-se qualquer coisa.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Adolfo Rocha ou Miguel Torga ou Portugal

Faz 100 anos que nasceu Adolfo Rocha, entretanto falecido Miguel Torga em 1995. Independentemente de concordar ou não com a criação de efemérides para recordar determinadas personalidades, que na maioria dos casos caem no esquecimento fora delas, esta efeméride específica tenho de comemorar, porque Miguel Torga faz parte do meu imaginário literário praticamente desde que comecei a ler. Ainda hoje acho que é uma sorte para todos os estudantes terem a possibilidade (ou será que é obrigatoriedade? mesmo assim...) de ler os “Bichos” na escola - confesso que não sei se esta pérola da nossa literatura ainda faz parte dos programas curriculares de Português.

Há cerca de meia dúzia de anos, por ocasião da reedição das obras de Miguel Torga pela Dom Quixote, comprei um livro com todos os contos do autor compilados em mais de 800 páginas. (Re)li os Contos da Montanha, os Novos Contos da Montanha, os Bichos e tudo o resto em menos de um mês, com uma avidez e uma alegria extasiantes. Poucos devem ter descrito o Portugal profundo com tanta imaginação e sem cair em catalogações surrealistas, neo-realistas ou outros istas que tais.

Pessoalmente, a seguir a Pessoa, Miguel Torga devia ter sido o segundo Prémio Nobel da literatura portuguesa. Porque foi o seu próprio editor, o seu próprio crítico, o seu próprio impulsionador e o seu próprio autor. Não tivesse ele dito um dia: “nasci subversivo. A começar por mim - meu principal motivo de insatisfação”. Mas como o Nobel é cada vez mais um prémio politico e não um prémio literário ficamos assim. Mas ficamos bem, porque, pelo menos para mim, é uma honra ter a mesma pátria de tão brilhante contador de histórias, imagens e portugalidades.

Para lembrar Torga todos os dias, transcrevo um pequeno excerto do "O Terceiro Dia" da “Criação do Mundo”:

“Petrópolis apareceu daí a pouco, envolta numa penumbra perfumada de cravos. Depois começou a descida para o Rio, vagarosa, íngreme, dentro do véu espesso da noite. Até que o barracão horizontal da Leopoldina Railway, cheio de luz, pôs fim ao torpor da viagem.
A cidade, agora, tinha outra realidade. O ingénuo rapazinho que a vira em espanto e desespero à chegada do Arlanza, morrera. O carro que desta vez me levava vertiginosamente pela Avenida do Mangue, movimentava as coisas mas não as tornava siderais. No Hotel Globo, onde nos hospedámos, o porteiro agaloado, o telefone à cabeceira da cama e o pequeno-almoço servido no quarto eram trivialidades naturais. Nem a baía da Guanabara, no dia seguinte, conseguiu fazer transbordar a taça dos sentidos. A própria beleza deixara de ser uma nebulosa nos meus olhos. O informe começava a ter linhas, cores e volumes. A imensa concha azul, que grandes e pequenas ilhas salpicavam de verdura, e a teoria de montes à volta, que lembravam gigantes tornados Narcisos à beira das àguas, só como certezas físicas se prestavam aos devaneios da imaginação. O mundo pedia-me lucidez antes de cada deslumbramento. Se novamente o táxi atropelasse um pobre transeunte, e o motorista, para evitar complicações, o deixasse também ao abandono no meio da rua, eu saberia opor à desumanidade pelo menos um protesto.
Saberia isso, da mesma maneira que sabia ouvir claramente, entendendo-lhe todas as intenções, o diálogo travado na casa Soares&Companhia. Meu tio, ainda lembrado do acolhimento desdenhoso que me fora dispensado na altura do desembarque, a tirar a desforra:
- Este é aquele bichinho de toca que esteve comigo aqui à chegada de Portugal...Lembra-se? Primeiro aluno do Ginásio de Ribeirão e futuro doutor de Coimbra...
E o gerente, a fazer-se desentendido:
- Muita hora, e felicidades...
- Obrigado, e prazer, também... - respondi, com ar irónico.
Crescera por fora e por dentro. Nem a mais leve sombra da confusão de outrora. Atento à ronha dos interlocutores e aos mínimos pormenores da conversa. O numero aproximado de arrobas de café da próxima colheita, informações do deve e do haver do comprador da fazenda, as condições de pagamento da venda realizada, a crise que se aproximava., as saudades da pátria que o senhor Marques curtia Há vinte e cinco anos, a sua aldeia, a mãe que morrera de velhice no inverno passado, e o pedaço de asno dum cunhado que lhe dava cabo de meia dúzia de oliveiras que herdara...
Aprendera a objectivar a vida. Caminhava no chão. As palavras, os gestos e o próprio silêncio assumiam finalmente a crua função expressiva [...]”.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Covasdauro no 221B da Baker Street


Sherlock Holmes faz parte do meu imaginário desde que aprendi a ler. Os livros de Sir Arthur Conan Doyle dedicados ao maior detective de todos os tempos acompanharam muitos dos meus primeiros verões como leitor.

Desde sempre me fascinou a personagem. Pela sua arrogância e genialidade. Pela sua indefinição sexual e dependência de drogas. Pelo seu lado negro que o torna ainda mais fascinante. Pelo actor Jeremy Brett que, na minha opinião, foi a mais poderosa encarnação de Holmes entre 1984 e 1994, na famosa série da Granada Television.

Fascínio pelo qual também é “culpado” o autor. Pela multilinearidade das aventuras e pela inteligência dos enredos, que me obrigaram a puxar pela cabeça desde muito cedo, sempre à procura da solução para o mais misterioso dos mistérios. Pelo brilhantismo de colocar o companheiro Watson a contar as histórias, oferecendo-lhe assim um protagonismo que diminuiria consideravelmente caso ele não fosse o narrador. Pela imensidão da obra dedicada a uma única personagem, com 56 contos e 4 novelas.

E porquê esta declaração apaixonada a Sherlock Holmes? Porque este ano tive o prazer de regressar a Londres, 10 anos depois da minha última visita, para um fim de semana turístico na companhia da minha amada. E qual não foi o meu espanto quando descobri que ia ficar instalado na famosa Baker Street de Sherlock Holmes. E que nem por acaso o hotel onde ficámos chamava-se precisamente Sherlock Holmes Hotel, ali a pouco mais de 100 metros do nº 221B, onde Sherlock Holmes viveu, hoje um museu dedicado a esta fascinante personagem da literatura mundial.

Claro que ainda nem tinha saído de Lisboa e já estava em pulgas para visitar o covil de Sherlock Holmes, cujo registo fotográfico fica aqui exposto, com um auto-retrato sherlockiano à cabeça e duas imagens da estação de metro de Baker Street, a primeira em todo o mundo. E claro que regressei a Lisboa com um livro (desta feita em inglês), “The Case Book of Conan Doyle”, que compila as últimas (e mais negras) aventuras idealizadas por Conan Doyle. Mas estou em crer que a minha relação com Sherlock Holmes não vai ficar por aqui. Pelos menos enquanto houver Moriartys a vaguear por este mundo...












quarta-feira, 18 de abril de 2007

KAZ UNDERWORLD

Continuando na banda-desenhada, o submundo criado por KAZ, sempre em formato comic-strip, é completamente alucinado, surrealista e transviado. Mas também é mordazmente actual e morbidamente político. Está tudo em KAZ UNDERWORLD. Aqui fica a visão do autor sobre o aquecimento global.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Chris Ware e Seth em Londres



Livros não são só letras e todos os livros é uma expressão que também tem de compreender o maravilhoso mundo da banda-desenhada. Neste último fim de semana de Páscoa tive a felicidade de passar 3 dias em Londres, uma excelente cidade para abrir a cabeça e o espírito e deixar entrar coisas novas. Um dos espaços que tive o prazer de visitar pela primeira vez foi a Tate Modern. Um edifício poderoso e arrebatador, uma colecção de arte impressionante, uma exposição retrospectiva de Gilbert & George, os revolucionários mais conservadores da arte contemporânea, e vários escorregas gigantes que transportam adultos para o vibrante mundo das crianças. Isto sim é um museu. A loja é um perigo para a carteira e eu não fui excepção à regra. Andava eu à procura de livros sobre arte, design e comunicação, no enquadramento do museu e da minha vida profissional, quando me deparei com uma secção de banda-desenhada que não me deixou passar incólume. Ao rolar os olhos pelas lombadas os meus dedos encontraram duas preciosas novidades de dois dos mais geniais cartoonistas americanos da actualidade: Chris Ware e Seth.

O primeiro é o autor da série Acme Novelty Library, que já vai no volume 17 (precisamente o que comprei), que apesar de ser um projecto épico, tem todos os contornos de um intimismo sonhador (nos desenhos) e arrepiante (nas histórias). Se tivermos em conta que Ware tem por objectivo levar a sua biblioteca da imaginação até ao nº52 e que até à data é raro existir uma edição semelhante à anterior - há volumes menores que A5 e outros que chegam quase ao A2, sempre com um cuidado editorial muito apurado e que chegam invariavelmente à perfeição -, a Acme Novelty Library foi, é e continuará a ser uma das obras-primas da banda-desenhada dos séculos XX e XXI. O 17º obriga à aquisição de tudo o que está para trás e de tudo o que está para vir. Não única e exclusivamente pela continuidade da(s) história(s), mas simplesmente porque é obrigatório ler, reler e ficar fascinado. Até porque mais do que ilustrador e contador de histórias, Chris Ware é um artista gráfico na verdadeira e mais completa acepção da palavra.

Quanto ao segundo autor, Seth, que por acaso (ou não, se atentarmos ao universo gráfico que ambos os artistas abraçam) é amigo pessoal de Ware, desde que comprei há uns anos a obra de arte que é “It’s a Good Life If You Don’t Weaken”, a história de um homem obcecado por um ilustrador desconhecido e desaparecido, que ando também eu obcecado por mais livros do autor de Palookaville. Uma série que, tal como a Acme Novelty Library, promete ficar nos anais da mais inspirada banda-desenhada da contemporaneidade. Uma banda-desenhada sem super-heróis, nem sequer com heróis, que aborda a vida quotidiana como ela é: colorida e a preto-e-branco; com alegrias e tristezas; com uma verosimilhança tal que nem sequer percebemos se estamos no universo encantado dos cartoons, ou no universo (des)encantado da realidade. Ora ao lado da lombada que me obrigou à compra do livro de Chris Ware, na livraria da Tate Modern em Londres, estava precisamente a mais recente obra de Seth, “Wimbledon Green”, que conta a história do maior coleccionador de comics do mundo. Quem é Wimbledon Green? De onde veio e para onde vai? O que pensam e dizem dele os outros coleccionadores (todos eles doentios) de comics antigos? Wimbledon Green é uma personagem cativante e repulsiva ao mesmo tempo (não são assim todas as grandes personagens?), numa história contada e desenhada à maneira dos melhores filmes negros, com um forte sabor a documentário, mas pura ficção brilhantemente imaginada por um autor que ele próprio vive imerso no universo do “old-fashion storytelling”.

Por tudo isto, parabéns à Tate Modern. Por ser um exemplo acabado de que um museu pode ser um espaço para as elites e para as massas, para miúdos e graúdos, para as belas-artes e para as artes populares. Para todos os livros em geral e para a banda-desenhada em particular. E não é a banda-desenhada a nona arte? Com génios como Chris Ware e Seth é com certeza.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Carta aberta a António Lobo Antunes


Meu caro António Lobo Antunes. Antes de mais, muitos parabéns pelo Prémio Camões. Tenho a certeza que o prémio não lhe foi atribuído por politiquices nem por conveniências. Estou mesmo certo que o louvor lhe é inteiramente devido, não só pelo extenso trabalho literário que tem vindo a produzir desde há quase 30 anos, mas também pelo brilhantismo de que se reveste a sua técnica literária, provavelmente demasiado avançada para o nosso tempo. Estou mesmo convicto que muitos dos seus livros, nomeadamente os mais recentes, e os que são (naturalmente) mais do seu agrado pessoal, só serão devidamente compreendidos daqui por alguns anos. Pelo menos estou em crer que é isso que vai acontecer comigo.

O António Lobo Antunes foi um dos autores que me despertou para a genialidade da nossa literatura à beira mar plantada. “Manual dos Inquisidores” está mesmo na minha lista de favoritos pessoais, onde cada capítulo é narrado por uma personagem, que pode ser principal e completamente central ao fluxo da história, ou completamente secundária, ao ponto de tocar apenas nas franjas da narrativa. E a cada capítulo somos confrontados com a aventura de descobrir quem está a falar (ou escrever, dependendo do ponto de vista) e qual é a sua relação maior ou menor com o todo. Tudo isto no contexto de uma família aristocrática durante o Estado Novo torna esta aventura literária ainda mais fascinante (um dia destes vou ter mesmo de reler este livro). Um poder que se sente na sua própria afirmação ao Jornal de Letras em 1996, “não acho o livro magoado. Posso achá-lo violento e cruel, terno, mas magoado não. Houve alturas em que senti que a coisa me sentia como a «Cavalgada das Valquírias», no «Apocalipse Now»”.

Contudo, e porque na vida há sempre um mas, tal como me fascina o “Manual dos Inquisidores!”, também me perco completamente nos seus escritos mais recentes e confesso mesmo que não fui além de “Não Entres tão Depressa Nessa Noite Escura”. E neste caso particular não passei mesmo das 100 páginas. Confesso que fico irritado quando não percebo aquilo que estou a ler. Quem está a falar. O que se está a tratar. Provavelmente sou eu que sou iletrado e incapaz de penetrar a (cada vez maior) complexidade dos seus escritos. Ou provavelmente estes são daqueles livros que precisam de anos para amadurecer no palato dos leitores, como os bons vinhos.

De uma coisa eu tenho a certeza: eu sou daqueles leitores que adora observar e absorver a técnica (e a sua é grande), mas também sou dos que precisa de uma história, ou um fio condutor que seja, ao qual me possa agarrar. Por isso, meu caro António Lobo Antunes, para esta história ficam os meus parabéns ao seu Prémio Camões, quem sabe a antecâmara de um Nobel já há algum tempo anunciado - mas aviso-o, e você já deve saber melhor que ninguém, que este prémio gosta mais de escritores engajados politicamente do que de escritores engajados literariamente, que creio ser o seu caso.

Quanto a este humilde leitor, fica a promessa de que um dia destes volto a tentar ler as suas últimas obras. Só não prometo que vou perceber ou gostar. Mas se o António Lobo Antunes se explicar um bocadinho melhor talvez eu chegue lá.

Feira do Livro Manuseado na Assirio & Alvim

É uma grande editora na forma e nos conteúdos. É mesmo ali ao pé de minha casa. Está mesmo ao lado de uma sex shop (sexo e cultura, o que mais se pode pedir?...). E tem uma feira do livro manuseado até ao próximo dia 28 de Abril. É a livraria da editora Assírio & Alvim e eu já lá dei um salto. Por uns míseros 30 euros investi em 4 livros em excelente estado, pelo menos para livros manuseados: "Poesia" de Ricardo Reis, "Trabalho Poético" de Carlos de Oliveira, "Pena Capital" de Mário Cesariny, e "Livro de Memórias" de Teixeira de Pascoaes. E o que lá deixei vai obrigar com certeza a um segundo salto. A menos que vão lá todos também, para se cultivarem a preços baixos e também para me impedirem de perder a cabeça e a carteira.

domingo, 18 de março de 2007

“Carta aos Párocos” de Mário de Carvalho


Este blog foi criado com o intuito de digitalizar as minhas preferências literárias à medida que vou lendo os milhares de caracteres que surgem perante os meus olhos óculizados. Sem alimentar polémicas, nem entrar em desagravos perante temas e atitudes que me possam surgir como reprováveis. Mas a vantagem desta coisa dos blogs é a liberdade que eles nos dão de exprimir e publicitar aquilo que simplesmente nos apetece. Ora uma das coisas que os meus olhos gostam de ler é o Jornal de Letras (provavelmente eu e mais meia dúzia de gatos pingados que precisam de saber o que se vai passando no mundo das letras...), publicação de que até sou assinante. E o mais recente exemplar dado à estampa (nº 951 – 14 Março) tem vários artigos interessantes, mas o que mais me saltou à vista (os olhos outra vez, sempre os olhos...) foi a “Carta aos Párocos” escrita por Mário de Carvalho. Uma carta onde Mário de Carvalho demonstra mais uma vez porque é que é um dos mais inspirados escritores portugueses da nossa contemporaneidade (leiam se faz favor “A Paixão do Conde de Fróis”, “Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto” ou “Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina”), mas onde também demonstra porque é que os senhores párocos da pátria lusitana merecem ser criticados pelo atraso de vida que (ainda hoje em dia!!!) conseguem advogar para Portugal e para o mundo. E aqui entra aquilo que eu não queria fazer à partida neste blog, mas que, por culpa do Mário de Carvalho (obrigado!) não resisti a fazer. Confesso que também sou anti-clerical e quando esse anti-clericalismo é tão eloquentemente exposto, e ainda mais por um escritor que admiro, não resisto a dar-lhe voz aqui no TODOS OS LIVROS. Se puderem comprem o JL (mesmo por quem tem a mania que aquilo é só para «intelectuais»), porque vale a pena alimentar quem luta contra a iliteracia. Se mesmo assim não ficarem convencidos, aqui vai o texto do artigo, com um louvor a Mário de Carvalho:

“Caros senhores párocos,

Antes de falarmos de vossas paternidades, permitam-me uma fugaz divagação sobre taxistas. Ainda não há muito, a propósito duns atropelos algo indecorosos que ocorriam no aeroporto de Lisboa, não poucos cidadãos manifestaram nos jornais uma forte desconfiança na classe. De imediato um jovem veio responder com indignação que era filho de taxista e que o pai, numa vida inteira de trabalho, sempre procedera como homem íntegro e impoluto. O jovem tinha razão ao não querer um homem de bem misturado com a mexerufada mais ou menos carroceira que indispunha os colaboradores e leitores dos jornais.

Eu penso que, ao dirigir-me a vossas senhorias, não corro o risco de que venha um filho desagravar o pai, e, se vier, pois tudo é possível nestas desajustadas eras, sempre protestarei que não me refiro aos párocos honrados, cumpridores do seu mester, respeitadores da constituição e da lei, repesos das malfeitorias contra Hipácia e Galileu, leitores de romances, informados do mundo, preocupados com as suas ovelhas, horrorizados com as memórias do Santo Ofício, para resgate do qual pedem perdão à divindade todas as noites, chorando. É, na verdade, muito difícil conversar e sustentar um determinado ponto sem recorrer às generalizações, porque os contínuos ‘distinguo’ acabam por entrevar o discurso. Seja a conversa sobre taxistas, jornalistas, toureiros, advogados ou calceteiros, compreenderão que ela resulta enfraquecida se a cada passo tivermos de acrescentar: «Claro que não são todos assim, eu até conheço uns torcionários de bom coração e altíssima cultura.»
Falo, senhores curas, com tristeza e com repulsa dos párocos do século XIX que por qualquer equívoco da Biologia continuam a negrejar e a bramir em igrejas que há por aí. Cabe aos cientistas averiguar como é que organismos com 200 anos tomam conta de um espaço público que a liberdade de culto consente ao seu múnus, para o desvirtuar em exercícios de solta demagogia e propaganda política. Talvez a água benta conserve, o incenso enrije e o ar dos templos, preservado das correntes deletérias do exterior, mantenha os corpos e as almas de outrora tal como elas eram. Já não se exibem, porventura, cartas remetidas do céu, como nos bons tempos de Baltasar Gracián e, até, de Júlio Diniz, mas há que reconhecer que a decadência e a má qualidade dos correios vêm sendo notórias desde há uns anos a esta parte.

Senhores priores, eu sei como vossas mercês, com o venerando Bispo de Roma à cabeça, trovejaram tão ferinamente contra o sufrágio universal, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de imprensa, contra a liberdade de ensino, contra a liberdade de manifestação, contra a igualdade perante a lei, contra a liberdade de culto, contra a República, contra o 25 de Abril, contra o divórcio, contra a pílula, contra o preservativo. Trovejar até seria o menos, porque lamentavelmente chego a pressentir em alguns dos vossos colegas um ressentimentozinho por já não ser permitido queimar gente ou denunciar gente para ser queimada. Se a divindade que vossas senhorias reverenciam existisse, existência que nunca foi provada e de que eu me permito, discreta mas firmemente, duvidar, decerto que o perfil da personagem, como vem às vezes relatada, não se compaginaria com certos comportamentos e certas vozearias dos seus subordinados.

Isto, senhores padres, vem a propósito de rumores que considero fundados acerca do teor das algumas homilias em matéria de referendo, utilizando os altares para violentar a boa fé dos crentes e a liberdade das consciências. A ser verdade, e por o Ministério Público andar tão ocupado com outro tipo de manipulações, que não teve decerto tempo para, neste campo, defender os interesses da República, eu julgo-me no direito de vos relembrar os vossos deveres e as condições legais em que a prática do vosso culto é aceite.

Há, senhores curas, entre os crentes, gente absolutamente admirável, a muitos títulos, que soube merecer o respeito e a admiração dos outros cidadãos: queiram inspirar-se nela. Há quem pratique, desinteressadamente, boas obras: tenham a bondade de testemunhar, apontar e seguir esses magníficos exemplos. E, já agora, de uma vez por todas, de preferência dando mostras de arrependimento, convertam-se finalmente à democracia.”

quarta-feira, 14 de março de 2007

Gosto do O’Neill

Gosto deste arquétipo de escritor lisboeta, intelectual e popular ao mesmo tempo, como o foram outros grandes escritores/poetas alfacinhas: José Cardoso Pires, Nuno Bragança ou José Gomes Ferreira. A arte que vem do quotidiano. Das tascas. Das pessoas. Das ruas.

Gosto da forma como ele (des)alinhou com todas as convenções poético-literárias. Foi surrealista e não foi. Foi hiper-realista e não foi. Foi, no fundo, o que lhe deu na real gana. Ou então, nas palavras do próprio: “o meu estilo é não ter estilo”. Ou então nas palavras de uma das suas várias ex-mulheres: “não se pode prender um espírito livre”.

Gosto da sua carreira na publicidade/comunicação, por onde também eu já andei e vou andando. Foi ele que inventou o famoso “Há mar e mar. Há ir e voltar”, que podia ter sido, mas não foi por rejeição do cliente, “Este Verão viva desafogado” (gosto mais).

Gosto das semelhanças com Vinicius de Moraes. Vi o documentário sobre Vinicius enquanto lia a biografia do O’Neill e as semelhanças são impressionantes: almas gémeas, as mulheres, os copos, o espírito, a poesia, o anedótico, a língua portuguesa.

Gosto da forma como ele reinventava uma língua já de si tão inventiva. Quem cria expressões como “rechinchante sardinha” ou “os olhos pestanítidos” não é gago, é brilhante. É o poeta dos três C’s - cama, copos e conversa -, enclausurado no país dos três F’s: Fátima, futebol e fado.

Gostei de ler “Alexandre O`Neill - Uma biografia literária”, escrita por Maria Antónia Oliveira. De saber um pouco (muito) mais sobre um dos maiores símbolos do poder de comunicar em português. Do esforço hercúleo da autora em encontrar fontes dispersas sobre uma personalidade já de sei tão dispersa. Da recolha exaustiva de depoimentos (só estranhei a ausência de testemunho de Teresa Patrício Gouveia). Do itinerário vivencial proposto por Maria Antónia Oliveira, que nos permite correr as ruas do Príncipe Real à Praça das Flores e ao Chiado e descobrir as casas onde O’Neill morou, os alfarrabistas que desempoeirou e as tascas onde se atascou - era um enfardador incurável, apesar de ser teso que nem um carapau, física e monetariamente.

Só não gostei da tendência da autora em intervir demasiado, nomeadamente quando se dirige ao leitor, mas principalmente quando exerce juízos de valor sobre os problemas amorosos do poeta e a inconstância das suas relações com o sexo oposto. Mais ainda quando a autora se propôs a fazer uma biografia literária.

Por tudo isto e mais alguma coisa, gosto cada vez mais do género biográfico e gosto do O’Neill. Quanto mais não seja por isto:


E de novo, Lisboa…


E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?

Alexandre O´Neill
(Poesias Completas 1951/1981)

terça-feira, 13 de março de 2007

“Compromisso: Nunca Desistir” (Tomás Morais), por Álvaro Ramalho

Antes de partir para uma grande aventura profissional além-fronteiras, o meu querido primo Álvaro não resistiu ao ímpeto de responder ao meu repto de participação neste blog e enviou-me uma recensão de um livro escrito sobre o universo onde ele se gosta de mover: o desporto em geral e o rugby em particular. Aqui ficam as suas ideias sobre o livro do seleccionador nacional de rugby, Tomás Morais: “Compromisso: Nunca Desistir” (Booknomics).
“Trata-se de um livro de leitura fácil e de uma temática muito em voga nos últimos tempos, o desporto aplicado à gestão das empresas.
Este livro resulta principalmente de um conjunto de apresentações e palestras feitas pelo Tomás Morais a várias empresas e da parceria com o Sporting Clube de Portugal, onde trabalha como colaborador, criando a estrutura do livro, ao qual adicionou umas estórias da selecção de rugby, dos seus elementos, jogadores, dirigentes e de algumas viagens.
Na minha opinião, e como jogador de rugby, considero um livro interessante, simples, mas com a utilização de vários conceitos relativamente complexos tais como a gestão de equipas, gestão do stress, liderança, motivação e até mesmo o “coaching” aplicados ao desporto e a tentativa de transposição para as empresas.
Aborda estas matérias de forma talvez um pouco pretensiosa, mas vale pela sua aplicação pioneira, no que se refere ao Rugby, e que teoricamente resultaram nos enormes sucessos do Rugby Nacional. Destaca-se a evolução do 30º lugar do ranking Mundial para o 15º, o 10º lugar no Campeonato do Mundo de Rugby de VII e a obtenção, por mérito próprio, da participação da mesma equipa de Rugby de VII em todas as etapas do circuito mundial nesta época 06/07.
Enfim, o livro vale pela forma, pela novidade, pelo meio em que se insere e merece ser lido por todos aqueles que gostam de desporto e do jogo (Rugby)”.
Altura ideal para a leitura: Sábado, 10 de Março, de manhã para às 15h estar no EUL a ver o Portugal vs Uruguai (derradeira fase de apuramento para o Campeonato do Mundo de Rugby).
Tempo de Leitura: 1 a 2 horas

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