domingo, 22 de julho de 2007

Os Maias arebatadores


“Carlos via-a assim tremer, via-a toda pálida... E nem a escutara, nem a compreendera. Sentia apenas, num deslumbramento, que o amor comprimido até aí no seu coração irrompera por fim, triunfante, e embatendo no coração dela, através do aparente mármore do seu peito, fizera de lá ressaltar uma chama igual... Só via que ela tremia, só via que ela o amava... E, com a gravidade forte de um acto de tomada de posse, tomou-lhe lentamente as mãos, que ela lhe abandonou submissa de repente, já sem força, e vencida. E beijava-lhe ora uma, ora outra, e as palmas, e os dedos, devagar, murmurando apenas:
- Meu amor! Meu amor! Meu amor!”

(...)

Carlos voltou-se, ferido no coração. Com o seu vestido escuro, para ali caída e abandonada, parecia já uma pobre criatura arremessada para fora de todo o lar, sózinha a um canto, entre a inclemência do mundo. Então respeitos humanos, orgulho, dignidade doméstica, tudo nele foi levado como por um grande vento de piedade, Viu só, ofuscando todas as fragilidades, a sua beleza, a sua dor, a sua alma ublimemente amante. Um delírio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se à sua paixão. E, debruçando-se, disse-lhe baixo, com os braços abertos:
- Maria, queres casar comigo?”

sábado, 21 de julho de 2007

Os Maias da nossa miséria


“A única coisa a fazer em Portugal (...) é plantar legumes, enquanto que não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo. E se se vir então que não encerra nada, demitamo-nos logo voluntàriamente da nossa posição de país para que não temos elementos, passemos a ser uma fértil e estúpida província espanhola e plantemos mais legumes!
O velho escutava com melancolia estas palavras do neto, em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inércia. Terminou por dizer:
- Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa!”

(...)

“Clamamos por aí, em botequins e livros, «que o país é uma choldra». Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... Vossa Excelência não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão está toda em quem a trabalha. Até aqui, a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!...”

Os Maias irónicos


“Se o vício se perpetuava, é porque a sociedade, indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embelezavam, que o idealizavam... Que escrúpulo pode ter uma mulher em beijocar um terceiro entre os lençóis conjugais, se o mundo chama a isso sentimentalmente um romance, e os poetas o cantam em estrofes de oiro?”

domingo, 15 de julho de 2007

Os Maias apaixonados

“Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os lábios nos lábios dela. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre os braços; - e ela pendia para trás a cabeça, branca como uma cera, com as pálpebras docemente cerradas. Le deu um passo, tendo-a assim enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sofá baixo, que rolou e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu, tropeçando, o largo sofá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou contra o pedestal onde o senhor conde erguia a fronte inspirada. E um longo suspiro morreu, num rumor de saias amarrotadas.”

Esta é para ti Carla. Podemos ter os nossos arrufos, mas ainda suspiro por ti...

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Os Maias caricaturais

“Uma das espanholas era um mulherão trigueiro, com sinais de bexigas na cara; a outra, muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de febre, que o pó-de-arroz não disfarçava. Ambas vestiam de cetim preto e fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janela, pareciam mais gastas, mais moles, ainda pegajosas da lentura morna dos colchões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo à súcia havia outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta e a cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja.”

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Os Maias atraiçoados


“Estava furioso. Nesse momento odiava Raquel – não perdoando ao seu ídolo ter-se deixado desfazer à paulada. Lembrava-se justamente da bengala do Cohen, um junco da Índia, com uma cabeça de galgo por castão. E aquilo zurzira as carnes que ele tinha apertado com paixão!. Aquilo pusera vergões roxos onde os seus lábios tinham avivado sinais cor-de-rosa! E tinham «feito as pazes». E assim terminava, reles e chinfrim, o melhor romance da sua vida! Preferiria sabê-la morta, a sabê-la espancada. Mas não! Levava a sova, deitava-se depois com o marido, e ele mesmo, decerto arrependido, chamado-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer as aplicações de arnica! Aquilo acabava em arnica!”.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Os Maias bucólicos

“Houve outra vez um silêncio no terraço. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo, agora, o sol ia aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca, numa refracção de ouro claro em que palpitavam as asas das primeiras borboletas voando em redor dos craveiros em flor: em baixo, o jardim verdejava, imóvel na luz, sem um bulir de ramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo brilho líquido da água do tanque, avivado, aqui e além, pelo vermelho ou o amarelo das rosas, pela carnação das últimas camélias... O bocado de rio que se avistava entre os prédiosera azul-ferrete como o céu: e entre rio e céu, o monte punha uma grossa barra verde-escura, quase negra no resplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, em duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique de um sino.”

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Episodios da Vida de um Leitor: Os Maias


Há dois anos tive o prazer de fazer um curso de escrita narrativa leccionado por Mário de Carvalho. Naturalmente eram sete cães a um osso para ter uma oportunidade de ouvir e aprender com este escritor que muito admiro. Na entrevista de triagem, que me orgulho de ter passado com distinção, entre outras questões, o Mário de Carvalho perguntou-me se eu já tinha relido os Maias, desde que a isso fui obrigado na escola. Confessei que não, mas se um escritor daquele gabarito me alerta para a importância de o fazer (sou um bocado influenciável por quem admiro, confesso...), passei a assumir a tarefa de reler os Maias como uma das etapas fundamentais da minha quimera pela literatura portuguesa.

É por isso com orgulho que anuncio que aos 35 anos decidi finalmente reler os Maias do nosso Eça. Com orgulho, com arrependimento (porque devia era tê-lo feito mais cedo) e sobretudo com enorme prazer, pois em dois dias que levo de Maias, já marcharam para cima de 200 páginas (e isto só ao serão porque de dia tenho de labutar). Até dou por mim a pensar que só me apetece que chegue o conforto da noite para eu me aconchegar ao Eça e aos Maias. E ao sábio Afonso, ao herói da fita Carlos, ao Pedro (o fraco!...) e à Maria Monforte (a ordinária!...), ao Ega, ao Dâmaso, ao Alencar, ao Vilaça, à Gouvarinho, aos Cohen (ainda não cheguei à Maria Eduarda, mas pelo andar das páginas, pouco faltará)... E a Santa Olávia e ao Ramalhete. E aos adjectivos mil, aos enredos infindáveis e aos ambientes cinematográficos. E ao Portugal de oitocentos em pleno estertor monárquico que Eça retrata e descreve com uma elegância, humor e rigor únicos, e que nos faz recordar que Portugal continua a ser uma “choldra ignóbil” incapaz de se regenerar.

Nos próximos dias, sempre que a oportunidade me surgir, hei-de deixar aqui umas passagens deste épico maior da nossa língua que se deve ler por gozo (e que gozo...) e nunca por obrigação. Apesar de cada palavra que me entra pelos olhos me comunique que deve ser uma obrigação de todos os portugueses sãos de espírito ler os episódios da vida romântica dos Maias de fio a pavio.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Ao Kamba Pepetela


Acabei de ler o meu primeiro Pepetela e comecei pelo fim com “Predadores”, que é um ponto de partida tão bom como qualquer outro. Fiquei desde logo encantado com tudo aquilo que aprendi e percebi sobre o maravilhoso linguajar angolanês e sobre a história recente de Angola, desde a descolonização portuguesa até hoje, num romance intenso e empolgante, que se lê de um fôlego.

Um livro onde se subentende o passado de luta pelo MPLA de Pepetela e a mágoa que o marca a cedência de muitos dos seus companheiros de independência às “gasosas” e ao novo-riquismo. Um livro que sublinha o contraponto entre os angolanos que lutam pelo futuro de Angola e os angolanos que lutam (a qualquer custo) pelo seu próprio futuro, com avultadas contas fora do país e sem qualquer tipo de empenho na melhoria cada vez mais urgente da qualidade de vida de um país que cresce a uma velocidade imensa, mas só para alguns (muito poucos) e à custa da miséria de tantos.

Um livro com uma forte crítica ao aburguesamento dos angolanos que trabalham para o Estado e que sobem na vida à conta das benesses ilícitas que isso lhes trouxe, com a brilhante personagem principal de Vladimiro Caposso, do Catete, no epicentro. Vladimiro porque quando era jovem ficava bem adoptar nomes revolucionários. Do Catete porque era mais fácil subir se se assumisse como local de nascimento a terra do chefe revolucionário. Uma triste farsa perante a qual não se consegue deixar de sorrir, porque apesar da tristeza, a escrita de Pepetela é de uma alegria contagiante.

Um livro onde fica patente o ódio a todos estrangeiros por parte destes novos ricos, uma falsa desculpa para quem não soube enriquecer a si próprio ao mesmo tempo que enriquecia Angola. Um livro onde é exposta às claras a incapacidade destes “revolucionários” angolanos de governar um país com tanto de riqueza como de guerra. Deve ser precisamente por isso que me veio constantemente à memória a fábula de George Orwell sobre o triunfo dos porcos que expulsaram os humanos da quinta, para no fim acabarem como eles. Pelos visto, o caciquismo foi mesmo uma das principais heranças deixadas pelos portugueses em Angola.

Um livro que começa ainda no tempo da guerra colonial e da esperança por um mundo melhor, e acaba no início de 2005, após (apenas) três natais consecutivos de paz que justificam plenamente a interrogação que Pepetela deixa no ar: até quando?

Para terminar, obrigado a Pepetela por me dar a ler este fresco sobre a Angola pós-Portugal, pela simpatia com que se deixou abordar por mim na Feira do Livro deste ano e pelo autógrafo cordial que me concedeu, com um afável sorriso de quem nem parece que viveu (e vive) no país que o escolheu para nascer. E uma nota final para o meu primo Álvaro, que foi ganhar o teu “kumbú” para Angola, com melhores intentos do que os estrangeiros retratados nestes “Predadores” - tens de ler este livro.

Pequena nota biográfica:

Pepetela nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Licenciado em Sociologia, em Argel, escritor, guerrilheiro, político e representante do MPLA, é actualmente professor na Universidade Agostinho Neto, em Angola, e membro da Comissão Directiva da União de Escritores Angolanos. A atribuição do Prémio Camões, em 1997, confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona.

domingo, 24 de junho de 2007

Saramago Duplicado


Como é costume quase religioso, todos os anos faço a minha romaria à Feira do Livro. Não para espreitar as novidades, porque essas espreito-as durante todo o ano, mas para gastar mais uns cobres a preços mais em conta. E sempre com o objectivo de engordar a minha conta de livros de autores portugueses. Esta ano abracei pela primeira vez um Pepetela (ao qual aqui voltarei quando acabar de o devorar), mas acabo sempre por adquirir mais alguma coisa dos meus indefectíveis. Um deles é Saramago, que por mero acaso estava no final da sua sessão de autógrafos, já com manifesta falta de paciência, junto ao pavilhão da sua editora de sempre, a Caminho. Outra coincidência foi que o livro do dia era (naturalmente) um Saramago que eu ainda não tinha lido: "O Homem Duplicado". Lá juntei o útil ao agradável, comprei o livro e enfilei-me com os restantes bajuladores do Prémio Nobel. Nos 5 minutos que esperei ainda pensei em arranjar alguma coisa inteligente para dizer ao senhor, mas acabei por ficar mais entusiasmado com a perspectiva de ler um livro que já aguardava por mim há algum tempo do que propriamente com a personagem que Saramago é. Aliás, Saramago é para mim o caso perfeito de que não se tem de apreciar pessoalmente o autor para apreciar imensamente o seu trabalho.

E não é o autógrafo que ornamenta as primeiras páginas do meu Homem Duplicado que torna esta obra maior. É a simples ideia de um professor de História que um dia, por mero acaso, enquanto vê um filme em casa, descobre que uma personagem completamente secundária é a sua cara chapada. A obessão de Tertuliano Máximo Afonso pelo seu duplicado adensa-se ao longo do livro até conseguir conhecer António Claro, que não só é realmente a cara chapada de Tertuliano, como a voz, a altura, os sinais e tudo o mais. Tudo o mais fisicamente, porque psicologicamente são as suas diferenças que os vão lançar num abismo que revelarei, porque é a ler que a gente se entende.

Posso sim revcelar que este é livro que tem a intensidade kafkiana de "Todos os Nomes" e a universalidade que deu ao autor um merecido Prémio Nobel. Na minha conta pessoal este foi o 10º Saramago e ainda há mais alguns na calha. Quem diz que ele é um autor difícil ou é porque não gosta, ou mais provavelmente é porque não o leu. Vale realmente a pena, não só porque este senhor trata muito bem a nossa língua, tem um estilo muito próprio e sabe contar histórias sempre com um sentido metafórico muito apurado. E até pode ter mau feitio e ser rabujento que eu pelo menos não o levo a mal. Só lhe levo a mal é se ele se for embora deste mundo sem me deixar mais umas páginas de calorosa leitura.

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