domingo, 15 de julho de 2007

Os Maias apaixonados

“Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os lábios nos lábios dela. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre os braços; - e ela pendia para trás a cabeça, branca como uma cera, com as pálpebras docemente cerradas. Le deu um passo, tendo-a assim enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sofá baixo, que rolou e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu, tropeçando, o largo sofá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou contra o pedestal onde o senhor conde erguia a fronte inspirada. E um longo suspiro morreu, num rumor de saias amarrotadas.”

Esta é para ti Carla. Podemos ter os nossos arrufos, mas ainda suspiro por ti...

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Os Maias caricaturais

“Uma das espanholas era um mulherão trigueiro, com sinais de bexigas na cara; a outra, muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de febre, que o pó-de-arroz não disfarçava. Ambas vestiam de cetim preto e fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janela, pareciam mais gastas, mais moles, ainda pegajosas da lentura morna dos colchões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo à súcia havia outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta e a cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja.”

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Os Maias atraiçoados


“Estava furioso. Nesse momento odiava Raquel – não perdoando ao seu ídolo ter-se deixado desfazer à paulada. Lembrava-se justamente da bengala do Cohen, um junco da Índia, com uma cabeça de galgo por castão. E aquilo zurzira as carnes que ele tinha apertado com paixão!. Aquilo pusera vergões roxos onde os seus lábios tinham avivado sinais cor-de-rosa! E tinham «feito as pazes». E assim terminava, reles e chinfrim, o melhor romance da sua vida! Preferiria sabê-la morta, a sabê-la espancada. Mas não! Levava a sova, deitava-se depois com o marido, e ele mesmo, decerto arrependido, chamado-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer as aplicações de arnica! Aquilo acabava em arnica!”.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Os Maias bucólicos

“Houve outra vez um silêncio no terraço. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo, agora, o sol ia aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca, numa refracção de ouro claro em que palpitavam as asas das primeiras borboletas voando em redor dos craveiros em flor: em baixo, o jardim verdejava, imóvel na luz, sem um bulir de ramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo brilho líquido da água do tanque, avivado, aqui e além, pelo vermelho ou o amarelo das rosas, pela carnação das últimas camélias... O bocado de rio que se avistava entre os prédiosera azul-ferrete como o céu: e entre rio e céu, o monte punha uma grossa barra verde-escura, quase negra no resplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, em duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique de um sino.”

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Episodios da Vida de um Leitor: Os Maias


Há dois anos tive o prazer de fazer um curso de escrita narrativa leccionado por Mário de Carvalho. Naturalmente eram sete cães a um osso para ter uma oportunidade de ouvir e aprender com este escritor que muito admiro. Na entrevista de triagem, que me orgulho de ter passado com distinção, entre outras questões, o Mário de Carvalho perguntou-me se eu já tinha relido os Maias, desde que a isso fui obrigado na escola. Confessei que não, mas se um escritor daquele gabarito me alerta para a importância de o fazer (sou um bocado influenciável por quem admiro, confesso...), passei a assumir a tarefa de reler os Maias como uma das etapas fundamentais da minha quimera pela literatura portuguesa.

É por isso com orgulho que anuncio que aos 35 anos decidi finalmente reler os Maias do nosso Eça. Com orgulho, com arrependimento (porque devia era tê-lo feito mais cedo) e sobretudo com enorme prazer, pois em dois dias que levo de Maias, já marcharam para cima de 200 páginas (e isto só ao serão porque de dia tenho de labutar). Até dou por mim a pensar que só me apetece que chegue o conforto da noite para eu me aconchegar ao Eça e aos Maias. E ao sábio Afonso, ao herói da fita Carlos, ao Pedro (o fraco!...) e à Maria Monforte (a ordinária!...), ao Ega, ao Dâmaso, ao Alencar, ao Vilaça, à Gouvarinho, aos Cohen (ainda não cheguei à Maria Eduarda, mas pelo andar das páginas, pouco faltará)... E a Santa Olávia e ao Ramalhete. E aos adjectivos mil, aos enredos infindáveis e aos ambientes cinematográficos. E ao Portugal de oitocentos em pleno estertor monárquico que Eça retrata e descreve com uma elegância, humor e rigor únicos, e que nos faz recordar que Portugal continua a ser uma “choldra ignóbil” incapaz de se regenerar.

Nos próximos dias, sempre que a oportunidade me surgir, hei-de deixar aqui umas passagens deste épico maior da nossa língua que se deve ler por gozo (e que gozo...) e nunca por obrigação. Apesar de cada palavra que me entra pelos olhos me comunique que deve ser uma obrigação de todos os portugueses sãos de espírito ler os episódios da vida romântica dos Maias de fio a pavio.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Ao Kamba Pepetela


Acabei de ler o meu primeiro Pepetela e comecei pelo fim com “Predadores”, que é um ponto de partida tão bom como qualquer outro. Fiquei desde logo encantado com tudo aquilo que aprendi e percebi sobre o maravilhoso linguajar angolanês e sobre a história recente de Angola, desde a descolonização portuguesa até hoje, num romance intenso e empolgante, que se lê de um fôlego.

Um livro onde se subentende o passado de luta pelo MPLA de Pepetela e a mágoa que o marca a cedência de muitos dos seus companheiros de independência às “gasosas” e ao novo-riquismo. Um livro que sublinha o contraponto entre os angolanos que lutam pelo futuro de Angola e os angolanos que lutam (a qualquer custo) pelo seu próprio futuro, com avultadas contas fora do país e sem qualquer tipo de empenho na melhoria cada vez mais urgente da qualidade de vida de um país que cresce a uma velocidade imensa, mas só para alguns (muito poucos) e à custa da miséria de tantos.

Um livro com uma forte crítica ao aburguesamento dos angolanos que trabalham para o Estado e que sobem na vida à conta das benesses ilícitas que isso lhes trouxe, com a brilhante personagem principal de Vladimiro Caposso, do Catete, no epicentro. Vladimiro porque quando era jovem ficava bem adoptar nomes revolucionários. Do Catete porque era mais fácil subir se se assumisse como local de nascimento a terra do chefe revolucionário. Uma triste farsa perante a qual não se consegue deixar de sorrir, porque apesar da tristeza, a escrita de Pepetela é de uma alegria contagiante.

Um livro onde fica patente o ódio a todos estrangeiros por parte destes novos ricos, uma falsa desculpa para quem não soube enriquecer a si próprio ao mesmo tempo que enriquecia Angola. Um livro onde é exposta às claras a incapacidade destes “revolucionários” angolanos de governar um país com tanto de riqueza como de guerra. Deve ser precisamente por isso que me veio constantemente à memória a fábula de George Orwell sobre o triunfo dos porcos que expulsaram os humanos da quinta, para no fim acabarem como eles. Pelos visto, o caciquismo foi mesmo uma das principais heranças deixadas pelos portugueses em Angola.

Um livro que começa ainda no tempo da guerra colonial e da esperança por um mundo melhor, e acaba no início de 2005, após (apenas) três natais consecutivos de paz que justificam plenamente a interrogação que Pepetela deixa no ar: até quando?

Para terminar, obrigado a Pepetela por me dar a ler este fresco sobre a Angola pós-Portugal, pela simpatia com que se deixou abordar por mim na Feira do Livro deste ano e pelo autógrafo cordial que me concedeu, com um afável sorriso de quem nem parece que viveu (e vive) no país que o escolheu para nascer. E uma nota final para o meu primo Álvaro, que foi ganhar o teu “kumbú” para Angola, com melhores intentos do que os estrangeiros retratados nestes “Predadores” - tens de ler este livro.

Pequena nota biográfica:

Pepetela nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Licenciado em Sociologia, em Argel, escritor, guerrilheiro, político e representante do MPLA, é actualmente professor na Universidade Agostinho Neto, em Angola, e membro da Comissão Directiva da União de Escritores Angolanos. A atribuição do Prémio Camões, em 1997, confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona.

domingo, 24 de junho de 2007

Saramago Duplicado


Como é costume quase religioso, todos os anos faço a minha romaria à Feira do Livro. Não para espreitar as novidades, porque essas espreito-as durante todo o ano, mas para gastar mais uns cobres a preços mais em conta. E sempre com o objectivo de engordar a minha conta de livros de autores portugueses. Esta ano abracei pela primeira vez um Pepetela (ao qual aqui voltarei quando acabar de o devorar), mas acabo sempre por adquirir mais alguma coisa dos meus indefectíveis. Um deles é Saramago, que por mero acaso estava no final da sua sessão de autógrafos, já com manifesta falta de paciência, junto ao pavilhão da sua editora de sempre, a Caminho. Outra coincidência foi que o livro do dia era (naturalmente) um Saramago que eu ainda não tinha lido: "O Homem Duplicado". Lá juntei o útil ao agradável, comprei o livro e enfilei-me com os restantes bajuladores do Prémio Nobel. Nos 5 minutos que esperei ainda pensei em arranjar alguma coisa inteligente para dizer ao senhor, mas acabei por ficar mais entusiasmado com a perspectiva de ler um livro que já aguardava por mim há algum tempo do que propriamente com a personagem que Saramago é. Aliás, Saramago é para mim o caso perfeito de que não se tem de apreciar pessoalmente o autor para apreciar imensamente o seu trabalho.

E não é o autógrafo que ornamenta as primeiras páginas do meu Homem Duplicado que torna esta obra maior. É a simples ideia de um professor de História que um dia, por mero acaso, enquanto vê um filme em casa, descobre que uma personagem completamente secundária é a sua cara chapada. A obessão de Tertuliano Máximo Afonso pelo seu duplicado adensa-se ao longo do livro até conseguir conhecer António Claro, que não só é realmente a cara chapada de Tertuliano, como a voz, a altura, os sinais e tudo o mais. Tudo o mais fisicamente, porque psicologicamente são as suas diferenças que os vão lançar num abismo que revelarei, porque é a ler que a gente se entende.

Posso sim revcelar que este é livro que tem a intensidade kafkiana de "Todos os Nomes" e a universalidade que deu ao autor um merecido Prémio Nobel. Na minha conta pessoal este foi o 10º Saramago e ainda há mais alguns na calha. Quem diz que ele é um autor difícil ou é porque não gosta, ou mais provavelmente é porque não o leu. Vale realmente a pena, não só porque este senhor trata muito bem a nossa língua, tem um estilo muito próprio e sabe contar histórias sempre com um sentido metafórico muito apurado. E até pode ter mau feitio e ser rabujento que eu pelo menos não o levo a mal. Só lhe levo a mal é se ele se for embora deste mundo sem me deixar mais umas páginas de calorosa leitura.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Villa Matas me mata...

Estou a ler o meu primeiro Enrique Vila Matas. Descobri-o nas páginas do Jornal de Letras. Confesso que o que mais me entusiasmou à partida foi o facto do senhor ser espanhol, mais precisamente catalão, mas também a influência auto-assumida de Kafka, uma das minhas pedras literárias basilares, mas sobretudo a figura do senhor, que, não sei porquê, me faz sempre lembrar Truman Capote. Tem uma aura misteriosa e impenetrante e ao mesmo tempo reveladora de um sentido de humor sarcástico e mesmo negro. Um ícone portanto, que é mesmo o que Vila Matas parece que se está a tornar, quanto mais não seja pelo sucesso que tem revelado mundialmente. Há mesmo quem diga que é mesmo o melhor narrador em espanhol no activo.

Podia ter ido para “História Abreviada da Literatura Portátil”, “Bartleby e Companhia” ou “Suicídios Exemplares” (a eles irei com certeza no futuro), mas escolhi propositadamente para primeiro livro uma obra menos conhecida, ou pelo menos menos badalada. Peguei num livro, simplesmente porque o título surgiu-me como extremamente sugestivo: “Filhos Sem Filhos”, um livro que conta em pequenos contos a história de Espanha dos últimos 41 anos. 41 anos porque foi esta a idade com que Kafka morreu (lá está...). Contos protagonizados por pessoas sem filhos, mas constantemente assombrados pelas memórias das suas próprias infâncias. Pessoas sem filhos que não se conseguem libertar do facto de eles próprios serem ou terem sido filhos. Um livro sobre o surrealismo da vida quotidiana (lá está Kafka outra vez) embrulhado por um humor contagiante e uma escrita cativante.

Isto para concluir que já percebi porque é que Enrique Vila Matas é um sucesso. Porque é um desafio que se lê sofregamente. Não sei porquê, ou talvez por isso mesmo, para além de Kafka, outro autor que me está sempre a vir à cabeça é Paul Auster. Pode não ter nada a ver, mas a imaginação do leitor tem destas coisas. E são estas coisas (associações, ligações, emoções, visões...) que fazem da leitura a melhor playstation do mundo. E ainda por cima aprende-se qualquer coisa.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Adolfo Rocha ou Miguel Torga ou Portugal

Faz 100 anos que nasceu Adolfo Rocha, entretanto falecido Miguel Torga em 1995. Independentemente de concordar ou não com a criação de efemérides para recordar determinadas personalidades, que na maioria dos casos caem no esquecimento fora delas, esta efeméride específica tenho de comemorar, porque Miguel Torga faz parte do meu imaginário literário praticamente desde que comecei a ler. Ainda hoje acho que é uma sorte para todos os estudantes terem a possibilidade (ou será que é obrigatoriedade? mesmo assim...) de ler os “Bichos” na escola - confesso que não sei se esta pérola da nossa literatura ainda faz parte dos programas curriculares de Português.

Há cerca de meia dúzia de anos, por ocasião da reedição das obras de Miguel Torga pela Dom Quixote, comprei um livro com todos os contos do autor compilados em mais de 800 páginas. (Re)li os Contos da Montanha, os Novos Contos da Montanha, os Bichos e tudo o resto em menos de um mês, com uma avidez e uma alegria extasiantes. Poucos devem ter descrito o Portugal profundo com tanta imaginação e sem cair em catalogações surrealistas, neo-realistas ou outros istas que tais.

Pessoalmente, a seguir a Pessoa, Miguel Torga devia ter sido o segundo Prémio Nobel da literatura portuguesa. Porque foi o seu próprio editor, o seu próprio crítico, o seu próprio impulsionador e o seu próprio autor. Não tivesse ele dito um dia: “nasci subversivo. A começar por mim - meu principal motivo de insatisfação”. Mas como o Nobel é cada vez mais um prémio politico e não um prémio literário ficamos assim. Mas ficamos bem, porque, pelo menos para mim, é uma honra ter a mesma pátria de tão brilhante contador de histórias, imagens e portugalidades.

Para lembrar Torga todos os dias, transcrevo um pequeno excerto do "O Terceiro Dia" da “Criação do Mundo”:

“Petrópolis apareceu daí a pouco, envolta numa penumbra perfumada de cravos. Depois começou a descida para o Rio, vagarosa, íngreme, dentro do véu espesso da noite. Até que o barracão horizontal da Leopoldina Railway, cheio de luz, pôs fim ao torpor da viagem.
A cidade, agora, tinha outra realidade. O ingénuo rapazinho que a vira em espanto e desespero à chegada do Arlanza, morrera. O carro que desta vez me levava vertiginosamente pela Avenida do Mangue, movimentava as coisas mas não as tornava siderais. No Hotel Globo, onde nos hospedámos, o porteiro agaloado, o telefone à cabeceira da cama e o pequeno-almoço servido no quarto eram trivialidades naturais. Nem a baía da Guanabara, no dia seguinte, conseguiu fazer transbordar a taça dos sentidos. A própria beleza deixara de ser uma nebulosa nos meus olhos. O informe começava a ter linhas, cores e volumes. A imensa concha azul, que grandes e pequenas ilhas salpicavam de verdura, e a teoria de montes à volta, que lembravam gigantes tornados Narcisos à beira das àguas, só como certezas físicas se prestavam aos devaneios da imaginação. O mundo pedia-me lucidez antes de cada deslumbramento. Se novamente o táxi atropelasse um pobre transeunte, e o motorista, para evitar complicações, o deixasse também ao abandono no meio da rua, eu saberia opor à desumanidade pelo menos um protesto.
Saberia isso, da mesma maneira que sabia ouvir claramente, entendendo-lhe todas as intenções, o diálogo travado na casa Soares&Companhia. Meu tio, ainda lembrado do acolhimento desdenhoso que me fora dispensado na altura do desembarque, a tirar a desforra:
- Este é aquele bichinho de toca que esteve comigo aqui à chegada de Portugal...Lembra-se? Primeiro aluno do Ginásio de Ribeirão e futuro doutor de Coimbra...
E o gerente, a fazer-se desentendido:
- Muita hora, e felicidades...
- Obrigado, e prazer, também... - respondi, com ar irónico.
Crescera por fora e por dentro. Nem a mais leve sombra da confusão de outrora. Atento à ronha dos interlocutores e aos mínimos pormenores da conversa. O numero aproximado de arrobas de café da próxima colheita, informações do deve e do haver do comprador da fazenda, as condições de pagamento da venda realizada, a crise que se aproximava., as saudades da pátria que o senhor Marques curtia Há vinte e cinco anos, a sua aldeia, a mãe que morrera de velhice no inverno passado, e o pedaço de asno dum cunhado que lhe dava cabo de meia dúzia de oliveiras que herdara...
Aprendera a objectivar a vida. Caminhava no chão. As palavras, os gestos e o próprio silêncio assumiam finalmente a crua função expressiva [...]”.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Covasdauro no 221B da Baker Street


Sherlock Holmes faz parte do meu imaginário desde que aprendi a ler. Os livros de Sir Arthur Conan Doyle dedicados ao maior detective de todos os tempos acompanharam muitos dos meus primeiros verões como leitor.

Desde sempre me fascinou a personagem. Pela sua arrogância e genialidade. Pela sua indefinição sexual e dependência de drogas. Pelo seu lado negro que o torna ainda mais fascinante. Pelo actor Jeremy Brett que, na minha opinião, foi a mais poderosa encarnação de Holmes entre 1984 e 1994, na famosa série da Granada Television.

Fascínio pelo qual também é “culpado” o autor. Pela multilinearidade das aventuras e pela inteligência dos enredos, que me obrigaram a puxar pela cabeça desde muito cedo, sempre à procura da solução para o mais misterioso dos mistérios. Pelo brilhantismo de colocar o companheiro Watson a contar as histórias, oferecendo-lhe assim um protagonismo que diminuiria consideravelmente caso ele não fosse o narrador. Pela imensidão da obra dedicada a uma única personagem, com 56 contos e 4 novelas.

E porquê esta declaração apaixonada a Sherlock Holmes? Porque este ano tive o prazer de regressar a Londres, 10 anos depois da minha última visita, para um fim de semana turístico na companhia da minha amada. E qual não foi o meu espanto quando descobri que ia ficar instalado na famosa Baker Street de Sherlock Holmes. E que nem por acaso o hotel onde ficámos chamava-se precisamente Sherlock Holmes Hotel, ali a pouco mais de 100 metros do nº 221B, onde Sherlock Holmes viveu, hoje um museu dedicado a esta fascinante personagem da literatura mundial.

Claro que ainda nem tinha saído de Lisboa e já estava em pulgas para visitar o covil de Sherlock Holmes, cujo registo fotográfico fica aqui exposto, com um auto-retrato sherlockiano à cabeça e duas imagens da estação de metro de Baker Street, a primeira em todo o mundo. E claro que regressei a Lisboa com um livro (desta feita em inglês), “The Case Book of Conan Doyle”, que compila as últimas (e mais negras) aventuras idealizadas por Conan Doyle. Mas estou em crer que a minha relação com Sherlock Holmes não vai ficar por aqui. Pelos menos enquanto houver Moriartys a vaguear por este mundo...












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